segunda-feira, 4 de junho de 2012

Incidente

Pensei em escaquear o sentimento para me livrar dele aos poucos – peça por peça. Mas perdi o jeito de traçar e cruzar as linhas de corte. Assim sendo, dobrei-o e guardei-o num armário trancado à chave, para que não incomodasse ocupando tanto espaço – pois se aberto e estendido por sobre o peito, não escusava um só canto, aquecia até o que não o tocava e dele estava longe.
O coração desordeiro eu segurei com firmeza e levei à canastra. Porém, a diligência era fraca e por pouco deixou-o escapar. Distraída que sou, não o vi esconder-se no quintal e nem percebi quando entrou pela janela. Não fosse o estrondo que fez ao arrombar o pequeno armário no sótão, nem saberia dizer como foi que de repente me vi às voltas com tantas reminiscências.
Ao descer as escadas, parou diante de mim e encarou-me com o semblante determinado que eu bem conhecia. Com calma, desdobrou o sentimento que carregava nas mãos, agitou-o no ar – uma, duas, três vezes – para que se abrisse totalmente e embrulhou-se nele. Deu-me as costas e saiu porta afora – abandonando seu abrigo, deixando-me aflita. Saberá ele como voltar?

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