terça-feira, 30 de outubro de 2012

Leitura

A Leitura é um ato cabalístico, que põe medo em quem não a conhece, e ao longo do tempo foi reprimida por seu poder. Por sorte, sempre houve quem soubesse como usá-la, enquanto outros eram atraídos pela beleza das imagens esculpidas. Afinal, é mais fácil amar as Cores – são moldáveis; ajustam-se facilmente ao gosto dos olhos. Enquanto as Palavras são ariscas – barulhosas; difíceis de manusear. É preciso tato para lidar com elas. Podem parecer sempre as mesmas, mas variam em peso e formato – sendo capazes de atingir os mais variados graus de significância. Seu peso difere com o sentimento e o formato não passa de máscara – para amenizar o impacto de sua verdadeira face ou dar uma prévia representação daquilo que ela carrega. 
Entristece-me ver o que o mundo faz com elas. Agitam-nas por aí a torto e a direito, contaminando-as com temas infetos. E o que posso fazer? 
Nada. A não ser, continuar aprendendo, continuar convivendo com elas. Elas e a insanidade do mundo – a sua falta de tato. E talvez, deixar que saibam como as vejo – as Palavras: um inimigo de respeito, com o qual eu sei negociar. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Desatino

Quem seria louco o bastante 
Para sair na chuva 
Assim, sem proteção – 
Sem para-raios? 

Para andar na corda bamba 
Mesmo sem saber – 
Descalço, no alto; 
Sem ter aonde segurar?

Quem seria tão insano 
A ponto de se deixar sangrar 
Por olhos ariscos 
Que devoram almas? 

Quem seria louco o bastante 
Para entregar os lábios 
Para os lábios desse alguém – 
E em seu peito descansar? 

Quem seria assim desatinado 
A ponto de deixar as mãos 
Perderem-se apaixonadas 
Naquele cabelo desarrumado? 

Quem seria tão insano 
Para enroscar-se em abraços, 
E sem embaraço – 
Entregar-se nos braços de alguém assim? 

Seria um apaixonado – 
Um pobre desavisado; 
Um louco desatinado 
Que ante um sorriso deixou-se cair.